
Passei as últimas 24 horas ouvindo o álbum In the Wee Small Hours, do Frank Sinatra...
Confesso que quando comecei a escutar, tinha em mente aproveitar a minha empolgação inicial com a idéia do blog para ouvir logo um disco que não me chamava muito a atenção. Não que não goste do Frank: ouço há muitos anos “A Voz”, e já passei longas e prazerosas madrugas com uma taça de Merlot na mão ouvindo I’ve Got You Under my Skin e That’s life. Mas In the Wee Small Hours.... Nunca tinha ouvido, e fiquei com medo de não gostar do que eu ia escutar.
A resenha que consta no livro 1001 Discos é um pouco desanimadora. Sim, o disco simplesmente inaugura o conceito de “álbum”, com uma coleção coordenada de músicas em torno de um tema específico, e “A Voz” sempre me foi um ótimo atrativo... Mas o tema do álbum me parecia um pouco sombrio e triste, um misto de dor-de-cotovelo misturado com fossa, uma espécie de precursor do estilo consagrado no Brasil pela Maysa.
Frank Sinatra sempre foi para mim o arquétipo da alegria contagiante, da confiança intrépida na própria sobrevivência a despeito de tudo e todos, uma espécie de malandro carioca made in USA. É antológica nesse sentido a cena de “O Que Querem As Mulheres” em que Mel Gibson, no papel do arquétipo do macho alfa, tenta provar uma série de produtos femininos para criar uma campanha publicitária dançando músicas de Sinatra com uma taça de vinho na mão... O caro safo, que sabe que a vida não é um mar-de-rosas, mas que sabe o momento certo de se preocupar com isso.
Talvez isso representasse um “choque cultural” com o Sinatra de In the Wee..., e isso acabasse me fazendo não gostar do disco. Decidi ir aos poucos, para acostumar meus ouvidos. Cheguei ontem cansado da academia, tomei um banho e deitei na cama para dar uma fuçada na internet. Apertei o play e, nos primeiros sons da voz de Sinatra, percebi que teria uma ótima experiência pela frente.
Trata-se de poesia pura musicada. Sinatra parece querer controlar cada sentimento de quem está ouvindo a música, como quem dissesse “calma, deixa comigo agora, vou te falar o que é a vida”. Adormeci sem perceber, com o pensamento longe e uma profunda paz de espírito.
Continuei escutando o disco ao longo do dia de hoje, porém sem que ele causasse em mim o mesmo efeito. Pega metrô, vai pra academia, toma uma ducha, vai pro trabalho, atende telefonema, reunião com cliente, pega trem, vai pra pós... A correria do dia-a-dia pareceu demandar mais da minha atenção, e o disco foi relegado à periferia das minhas preocupações.
Enfim, voltando pra casa da pós já tarde da noite, resolvi dar mais uma chance pro álbum, e coloquei mais uma vez no iPod. Foi incrível. Parecia que estava em alguma daquelas cenas de filmes ou videoclipes em que o personagem principal fica em câmera lenta enquanto o mundo em sua volta continua andando sem parar.
Foi engraçado reparar no desencontrado balé das mulheres varrendo a estação da Sé enquanto os passageiros corriam para pegar o trem, o casal de namorados se beijando no vagão enquanto pessoas entravam e saiam a cada estação, o olhar distante das pessoas preocupadas em chegar logo em casa...
O final do disco foi apoteótico: saí do metrô e comecei a caminhar na avenida até a minha casa, que estava completamente deserta, com exceção de algumas pessoas conversando aqui e ali e uns carros passando em alta velocidade. Comecei a andar no meio da rua, aquela chuva discreta e o vento frio da madrugada dando um ar de inverno, parecei que o próprio Sinatra ia aparecer a qualquer momento de algum daqueles prédios escuros e silenciosos.

Tive a impressão de estar num daqueles filmes que se passam em cidades grandes e impessoais, em que os personagens lutam para encontrar um lugar ao sol em meio a suas rotinas, e de repente algo as acontece e funciona como mote para todo o roteiro. Foi engraçado o contraste também com o mesmo cenário sem a música tocando, parecia um lugar mais triste.
Em suma, trata-se de um álbum perfeito para aqueles momentos em que você quer – ou precisa – ficar sozinho e deixar o pensamento correr solto, de preferência com um bom copo de vinho na mão e aquela sensação boba de uma saudade que ainda não começou a incomodar, de um problema que vai te tirar do sério daqui a umas 2 horas, do chefe vai lhe atazanar a idéia, mas disse que não volta hoje mais para trabalhar.
Amanhã não ouvirei nada, vou me dedicar a curtir o show do U2.
Ótimo álbum para ouvir trabalhando.
ResponderExcluirEu concordo com você! Sinatra sempre é muito bom para se ouvir trabalhando...
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